RASGANDO TURNER
(2024)
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Rasgando Turner é uma reflexão. Mais que prática artística, é desejo de experiência estética; uma procura pela experiência do sublime num meio aparentemente real como o fotográfico. Entende-se o sublime como uma experiência inicialmente desconcertante seguida de um prazer ainda maior. A razão é abalada e o espectador é confrontado com o seu limite, com a sua pequenez, com o seu desconhecimento. Mas a pequenez sentida torna-se motor para a superação; o desconhecido entusiasma ao conhecimento e o espanto conduz ao pensamento e à reflexão. Experimenta-se o sublime; não pela qualidade do objecto, mas pelas moções internas que causa ao sujeito. E esta série fotográfica é uma tentativa de aproximar o espectador desta experiência transformadora.
William Turner é uma das referências na experiência estética do sublime, mas parece que o sujeito contemporâneo adquiriu conhecimentos e conceitos à imagem romântica de Turner, ganhando habituação e perdendo sensibilidade, afastando-se da experiência estética do sublime. A fotografia inicialmente produzida nesta série era demasiado próxima desse romantismo, pelo que foi necessário cortar, rasgar Turner. Não como insulto histórico, mas como sólida referência da novidade que outrora representou. O corte de “Rasgando Turner” introduz destruição, estranheza e ruína à obra. O espelho acrescentado permite ao espectador ver- se e encontrar-se na obra. E a ideia de arco aqui presente - em que o espectador pode sair de si, ver-se na obra, encontrar-se, transformar-se e voltar a si - é aproximação relevante à experiência do sublime. Ao limite, o espectador é parte integrante da obra. Completa-a e possibilita uma nova imagem. O contexto, o lugar e os olhos que olham o espelho renovam continuamente a obra. Constroem novas narrativas e novos olhares. Novos espectadores projectam-se no espelho, formando uma nova imagem. Cada olhar constrói uma nova obra e um novo espectador. E assim, cria-se espaço para o espanto; cria-se espaço para o sublime.